sábado, 10 de março de 2012

Para quê? Com quem? Como ler a Bíblia?

Este livrinho foi escrito para quem ainda não tem familiaridade com a Bíblia e deseja encontrar uma ajuda rápida para dar os primeiros passos com os textos sagrados. Aqui você encontrará noções básicas, elementos para começar a compreender a formação dos livros da Bíblia; poderá visitar rapidamente a história do povo de Deus; terá indicações práticas sobre como abreviar os livros e citar os textos bíblicos. São apenas os primeiros passos, uma ferramenta para o início de uma caminhada. Os demais passos você dará com outros meios, outros subsídios, mais específicos e aprofundandos. É importante que você faça isso também em comunidade. Sempre com a ajuda de outros, mas que os passos sejam dados com seus próprios pés.


Lendo a Bíblia com a vida e
a vida com a Bíblia



A mulher abriu a Bíblia numa página qualquer e, sem olhar apontou com o dedo um versículo na página, um versículo que, segundo ela, seria a palavra de Deus para seu dia que estava começando: "Judas, saindo dali, foi se enfor­car". Bem, se essa não servia, era o caso de encontrar outra frase. Fecha a Bíblia, abre novamente e o dedo aponta: "Vai tu, e faze o mesmo".
A historinha serve para ilustrar, com humor, o perigo­so hábito,ainda hoje presente, entre os fiéis, de ler a Bíblia como se ela fosse um livro de receitas, fórmulas mágicas, encantamentos ou coisas do tipo. É o caso, portanto, de rea­firmar o que é a Bíblia, que tipo de leitura podemos fazer dela, a fim de que ela não seja apenas isso: um baú de frases que abrimos para buscar respostas fáceis e imediatas para nossos problemas, muitas vezes problemas por demais pe­quenos.

A Bíblia é a história de um Deus que se revela falando e agindo com um povo 

Desde há muito tempo a Bíblia deixou de ser conside­rada como um baú de doutrinas ou verdades simplesmente ditadas por Deus aos seres humanos, como se a revelação divina fosse um meteoro caído do céu. Na Bíblia Deus apa­rece sobretudo como aquele que age, na aliança que faz com o povo para a conquista da terra e da liberdade e, em seu filho Jesus, no modo como se revela próximo e compassivo para com todos em vista da libertação, que é uma conquista humana, já agora, mas que é plenificada por Deus no mun­do futuro. Em toda a Bíblia, Deus fala e age, ou melhor, Deus fala agindo e age falando, porque sua palavra não é apenas um som, mas uma ação concreta (o termo hebraico dabar significa tanto "palavra" quanto "acontecimento"). Basta lembrarmos que, na primeira página do Antigo Testa­mento, Deus tudo cria pelo poder de sua palavra.
Deus se revela agindo e caminha com um povo que também age, fazendo história. Ler a Bíblia, por isso, é levar em conta essa história de Deus com um povo, ler a história do Filho de Deus encarnado entre nós, e nas suas palavras e ações abrir-se à revelação de Deus, ou seja, compreender como Deus se revelou e o que ele revelou para o povo da Bíblia, e como Deus se revela e o que ele revela a nós hoje.
Ler a Bíblia sem considerar essa história, ler um texto sem se preocupar em compreender o seu contexto, ou seja, por que o texto foi escrito, com que finalidade, é cair em leituras do tipo intimista, em que a pessoa tem em mente apenas a sua vida particular e procura na Bíblia uma res­posta ou uma luz para sua situação individual. A Bíblia nunca dará respostas para pessoas isoladas, porque é fruto de uma caminhada comunitária.
Desconsiderar a história e a caminhada do povo da Bíblia é cair também numa leitura fundamentalista, ao pé da letra, ignorando toda a ajuda que as ciências humanas, a lingüística ou mesmo a arqueologia estão sendo para a com­preensão da Bíblia.
O modo de ler a Bíblia que no Brasil as Comunidades Eclesiais de Base fizeram desabrochar é a leitura popular, um método que tem em Carlos Mestre um dos grandes incentivadores. Para quem está interessado numa leitura popular da Bíblia, o que importa não é tanto entender a Bíblia, mas entender a vida encontrando na Bíblia a luz necessária. Assim como a Bíblia é sobretudo fruto, não cau­sa, da história do povo com seu Deus, seria totalmente des­propositado ler o texto bíblico sem levar a ele nossa vida, nossa história.

Para quê, com quem e como ler a Bíblia?

De tudo isso, enfim, podemos levantar três perguntas fundamentais para a leitura da Bíblia: Para que ler a Bí­blia? Com quem ler? Como ler?
Lemos a Bíblia para que ela ilumine nossa vida: essa é a finalidade principal.
Lemos a Bíblia sempre levando em conta a dimensão comunitária, mesmo quando a lemos individualmente; le­vando em conta a história do povo pobre e oprimido em busca de liberdade e terra do tempo da Bíblia, e levando em conta a história do povo pobre e sofrido de hoje. Se eu quero que a Bíblia ilumine a minha vida, preciso deixar que Ele ilumine, antes de tudo, a nossa vida, a vida de todo o povo. Porque se trata de um empenho comunitário, que pressupõe o empenho pessoal.
Lemos a Bíblia abertos aos estudos bíblicos que os es­pecialistas vão fazendo, pois estes estudos visam a tornar sempre menores as barreiras que naturalmente existem quan­do se lê um texto escrito há mais de dois mil anos, em outro ambiente, em outra cultura, em outra língua, com gêneros literários geralmente diferentes dos nossos...
Essa ajuda é o que chamamos de mediação herme­nêutica, que procura ajudar a compreensão do texto, sem ter a pretensão de esgotar seu significado, porque a Bíblia é fonte inesgotável de mensagem e de luz para a nossa vida, que nenhuma ciência será capaz de abranger, já que na lei­tura individual e comunitária, que se faz com os olhos da fé, é o próprio Espírito Santo que age e nos possibilita ir pene­trando no mistério que é o projeto de Deus, revelado plena­mente no filho Jesus. Um mistério/projeto já revelado, mas que só podemos compreender à medida que nos comprome­temos e o experimentamos na própria vida. É aquilo: uma coisa é saber o caminho, mas percorrê-lo é outra coisa; so­mente quando o percorremos é que o conhecemos realmen­te...

Fonte: Paulo Bagalia – Primeiros Passos com a Bíblia

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